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Quem de nós nunca esteve numa pista de dança em um festival ou festa – indoor ou open-air – e ouvindo uma determinada música pensou em algum tipo de história sendo contada? Ou como se a música estivesse levando para algum lugar? Como se quisesse nos dizer algo em especial? Pois bem, isto é produto da nossa forma de compreensão de uma técnica de construção dentro do arranjo musical. É preciso antes de iniciar esse artigo expor que o arranjo é a organização dos elementos de uma música. A forma com que os instrumentos tocam de forma combinada em diferentes funções, dentro de uma determinada estrutura musical. 

O conceito que vou abordar neste texto é o que entre os produtores de música eletrônica se entrelaça com o arranjo, mas que não é exclusivamente musical, que se denomina de storytelling. Antes de mais nada, aviso aos leitores: esta é a minha visão sobre este tema, outros artistas podem possuir diferentes abordagens. Não existe qualquer tipo de fórmula que será ensinada aqui. Se analisarmos literalmente o significado do termo storytelling (narrar uma história) e transpusermos para a música eletrônica, à primeira vista isto se torna muito vago. Pois se tratando especificamente do gênero eletrônico (Psytrance e suas vertentes, Techno e demais ramificações) estes não possuem, exatamente, algo fundamental para uma narrativa, a letra. De fato, este tema encontra duas dificuldades se buscarmos desenvolver ele por aspectos puramente técnicos. Primeiramente, como me referi antes ao aspecto abstrato de contar uma história por meio da música sem letras. E segundo, pela dificuldade de encontrar elementos que possam conduzir e caracterizar uma história dentro de um arranjo. 

Para iniciar vou primeiro conceituar o que é propriamente um storytelling, pois este conceito é usado em diversas áreas desde o marketing a literatura, além do cinema e do teatro. Ter um significado claro deste conceito já no início deste texto pode trazer algumas pistas por onde encontrar o caminho para construir uma narrativa dentro da música eletrônica.  Pesquisando sobre essa palavra encontrei no livro “StoryTelling: Histórias que deixam marcas” do autor Adilson Xavier, três definições interessantes sobre o assunto:

Definição pragmática: Storytelling é a tecnarte de elaborar cenas, dando-lhes um sentido envolvente que capte a atenção das pessoas e enseje a assimilação de uma ideia central.
Definição pictórica: Storytelling é a tecnarte de moldar e juntar as peças de um quebra-cabeça, formando um quadro memorável.
Definição poética: Storytelling é a tecnarte de empilhar tijolos narrativos construindo monumentos imaginários repletos de significado” (Xavier, 2015)

 

Se bem observarmos, essas três definições possuem palavras que poderiam ser muito bem colocadas dentro do universo da produção musical. Como por exemplo, a “elaboração de cenas”, “captar a atenção das pessoas”, “juntar peças” (lembrando a definição do arranjo) e, por fim a “construção de monumentos imaginários”. No entanto, a grande questão é como, ao abrirmos a tela do nosso DAW (Digital Audio Workstation), criar efetivamente elementos narrativos de uma forma puramente subjetiva, sem qualquer referência ótica que nos estimulem. Ou seja, é diferente, por exemplo, no processo de escrita de uma ficção que mesmo tendo margem para imaginação, as ambientações, as cores, os personagens, os capítulos e as cenas são postas de maneira mais detalhada aos leitores. A música por outro lado, age diretamente na subjetividade do ouvinte, abrindo um espaço maior para uma interpretação individual.

Por isso, em minhas pesquisas sobre a relação do storytelling para o nosso gênero, encontrei um paralelo mais direto nas artes onde a música possui um papel importante. Em outras palavras, foi na dramaturgia que encontrei elementos para construção de uma história no arranjo musical. Por isso, neste novo artigo do blog vou tentar mostrar um pouco da minha visão a respeito do storytelling e elencar algumas formas de narrar uma história no nosso gênero, a música eletrônica. Dito isto, podemos nos perguntar: afinal, qual é então a relação entre a arte dramática e o storytelling na música eletrônica?

1. O exemplo e o exercício visual 

Começo pelo exemplo visual por ele ser mais prático, pois na segunda seção já teremos munido nossa imaginação para tratar somente da música como uma paisagem sonora. Isto é, iniciar mostrando a forma com que a música ajuda na história contada visualmente nos auxilia a formá-la musicalmente na próxima seção, de uma forma mais clara, somente com elementos audíveis. Ao elencarmos a relação entre áudio e imagem podemos explicitamente observar a compreensão de um storytelling com a música, e assim começar deixá-la menos subjetiva e mais objetiva. Por isso, começamos por um exercício mental simples: se pararmos para imaginar agora e visualizarmos uma peça de teatro, o que estaríamos imaginando? 

Certamente, teríamos que imaginar inúmeros fatores que envolvem a construção de uma trama. O enredo, o cenário, os diálogos, as cenas, as transições, a ambientação, as luzes, as cores e assim por diante. Desta forma, elencando e visualizando (ainda que mentalmente) essa peça faltaria ainda um último elemento: a música. Que curiosamente é imaginada – na dramaturgia – somente após esse exercício de visualização. Dentro de um cenário que tenha expressivamente determinadas características como mais obscuro, mais alegre, natureza, distópico e tantos outros a música se torna peça chave para a criação da atmosfera em cena. Pois através do sentido da audição o processo de subjetivação daquele clímax se completa à nossa visão. Em outras palavras, a imagem somada à audição nos faz sentir a verdadeira sensação da história narrada na dramaturgia. O maestro Eugenio Matos, em seu livro “A arte de compor música para o cinema”, explica detalhadamente essa função musical na dramaturgia:

“A trilha musical tem uma função ainda mais abrangente que a ênfase do fator emocional envolvido na cena. Ela ajuda a criar uma atmosfera específica, como uma ‘marca’ que confere unidade ao filme como um todo. Situa a estória dentro de um determinado ambiente psicoemocional que é o próprio do filme, ajudando a alinhavar todos os diferentes acontecimentos e reforçando a alma dos personagens e lugares que tomam parte no drama.” (Matos, p. 49)

Com a música atuando na imagem, podemos perceber o poder em transformar personagens, mudar completamente as concepções dos ambientes, tensionar quando for necessário e distensionar quando for preciso. Quem não se lembra da famosa trilha suspense feita por Bernand Herrmann no filme Psicose de Alfred Hitchcock? Agora, imagine a mesma cena com uma música ambiente, sem tensão, não haveria o mesmo impacto que existe e que marcou completamente a história do cinema. “[...] podemos considerar a trilha musical como um personagem oculto que, no entanto, participa ativamente do drama” (Matos, p. 51). Estou trazendo estes exemplos para mostrar de forma mais palpável o papel da música na criação do storytelling, mesmo que ainda atrelado a dramaturgia. Pois é ela que sustenta e guia todo o processo de construção do storytelling no plano subjetivo. Enquanto as imagens, os efeitos visuais e o espaço físico do filme ou peça de teatro preenchem todo o processo objetivo de nossos sentidos.

“A música deve, assim, passar todo o recado, seja ele qual for. Por outro lado, quando o papel da criação musical ‘se reduz’ a dar suporte a mensagem veiculado por outros meios – visuais, verbais etc –, um novo jogo de fatores passa a condicionar – verdadeiramente – a criação do compositor.” (Matos, p. 52)

Em resumo, o papel da música como este “personagem oculto” tem a função de nos fazer sentir de acordo com as nossas concepções, ideias e sentimentos e complementar junto às imagens a experiência que o audiovisual nos oferece. O espaço para a criação do storytelling na dramaturgiadesenhado e estruturado por um roteiro – é composto pela clareza com que enxergamos o cenário, as cenas e os diálogos. Somado ao suporte encoberto que a música preenche de uma forma não visual, onde as impressões das imagens não ocupam. Em outras palavras, a música é secundária, mas nem por isso menos importante, possuindo um papel de alicerce no enredo. 

Com isso, nos leva a concluir que no audiovisual o storytelling é contado de uma forma tangível. As imagens, cenas e diálogos contextualizam a história de forma objetiva, sem um espaço tão aberto para a subjetividade diferente para cada espectador. A música neste caso possui uma base visual que mostra o caminho da história, no qual o compositor deve trilhar. Dito isto, depois de tentar expor o papel da música na dramaturgia junto aos elementos visuais que possuem na narrativa, para chegarmos ao cerne deste texto devemos dar um passo adiante. Pergunto: se retirarmos os elementos objetivos (imagens) e restar apenas a música como a única fonte narrativa, de que forma o storytelling pode ser contado? E quais são os elementos narrativos que podemos encontrar na música?

2. O teatro do arranjo

Como tentei descrever anteriormente, a música na dramaturgia serve de aporte para complementar as emoções da história de quem assiste um filme ou uma peça de teatro. Isto quer dizer que é como se a música orbitasse em torno da história que é contada pelos elementos visuais. Agora, vamos mudar de órbita. Para encontrar um storytelling narrado unicamente na (e pela) música, precisamos buscar nela os mesmos componentes ‘visuais’ de base na história. Parece um pouco abstrato agora, mas vamos começar. Primeiro, vou mostrar algumas funções que a música exerce em uma história. Depois, descrever os elementos narrativos dentro da música e, por fim, trazer meu método de implementação do storytelling

Mais uma vez lembrando o livro do maestro Eugenio Matos, existem elementos muito consistentes e expostos de uma forma didática que mostram as funções da música em uma determinada história. Ainda segundo o maestro, “entre as abordagens mais correntes sobre a música para a imagem, uma que se revela satisfatória pelo seu caráter didático organiza suas funções em três grandes categorias: Funções Físicas, Psicológicas e Técnicas” (Matos, p. 54). Entre esses três grupos cada um é dividido em subtópicos. 

- As Funções físicas, que estão atreladas “com o que se vê na tela, ou seja, a música enfatiza o que se percebe na sequência ou ajuda a situar o público no tempo e no espaço em que se dão os fatos” (Matos, p. 54) dividem-se em: Ênfase na ação, Mickeymousing, Referência Espacial e Referência Cronológica. 

- As Funções psicológicas, “age (m) diretamente no emocional das pessoas” (Matos, p. 54) dividem-se em: Ambiente Psicológico, Emoção subliminar e Comentário. 

-E a Função Técnica, que possui a função de interligar o filme por meio da música, se divide somente em Continuidade e Coerência. 


Vale lembrar que essas funções apresentadas por Eugenio Matos são de uma relação com a imagem. No entanto, nosso objetivo é encontrar elementos para uma história que seja contado somente pela música. Desta forma, vou buscar compreendê-las para além da imagem, buscando incorporá-las na música de pista.
Por isso, não irei abordar cada uma delas, pois algumas não se encaixam no nosso objetivo. Vou elencar apenas algumas funções que podem contribuir para uma boa construção de um storytelling na música eletrônica. 

- Referência Espacial (função física): A primeira delas, como já diz seu nome, tem a característica de trazer o ouvinte o mais próximo possível de um determinado lugar. A Referência Espacial usa-se muito para dar ênfase na localidade na qual a história está se passando. Aqui, pode-se usar das formas mais criativas possíveis para trazer uma maior compatibilidade entre a música e o espaço do storytelling. “Percussões em ritmos simples, sem melodias, podem sinalizar que estamos na África; um penny whistle tocada em estilo celta pode nos situar em algum ponto da Irlanda ou culturas irlandesas fixadas em outros países” (Matos, p. 56). Em outras palavras, a função de referenciar espacialmente o ouvinte/espectador é a partir de uma relação entre a temática e a composição.

Trazendo para uma música de pista, quem – especialmente do gênero psytrance – não se recorda de alguma música que possuía percussões e cantos indígenas, africanos? Pois bem, este seria um exemplo – clássico – de uma incorporação da Referência Espacial na música eletrônica. Retirada de elementos objetivos, sem qualquer imagem, os ouvintes remetem-se a alguma referência visual que seja familiar, preenchendo o espaço da imagem pela sua subjetividade.

- Ambiente psicológico (função psicológica): Absolutamente, a função que mais pode nos servir para a criação de um storytelling musical pensado para a pista de dança, é a função psicológica. Primeiro, porque nosso objetivo não inclui características visuais tendo ênfase exclusivamente no caráter subjetivo do ouvinte. Desta forma, é preciso ter um foco especial para a criação de um ambiente físico, como vimos na referência espacial, mas especialmente, uma atmosfera que acione o psicológico de quem escuta. Como bem explica o Eugênio Matos, 

“Aqui, o foco da composição se desloca para níveis mais profundos, o que torna o trabalho do compositor, por um lado, mais interessante e, por outro, um desafio maior. [...] a música envereda pelas vastidões dos sentimentos, mostrando-se de imensa importância para ajudar a contar estórias.” (Matos, p. 57)

Uma das principais funções psicológicas é chamada de Ambiente Psicológico. Criar um ambiente que sirva de aporte à subjetividade do ouvinte é fundamental. Por isso a importância central desta função: “estabelecer um ambiente psicológico através de uma música cuidadosamente elaborada é nosso papel como compositores” (Matos, p. 57). Como já foi assinalado anteriormente, sendo a música um personagem oculto e se tratando na criação de um storytelling diretamente pela música, o ambiente psicológico é que dará o ‘tom’ – não tonal, mas estético, como explicarei adiante – no qual o storytelling se desenvolverá. Algo mais suave, mais tenso, mais introspectivo e assim por diante. Ter a clareza de qual a música vai ser contada é um passo fundamental para narrar uma história com coerência a partir dos elementos musicais. “Resumindo, o mais importante, quanto ao ambiente psicológico, é ter diante de si a atmosfera geral do filme e empregar todos os recursos musicais de forma a contribuir com essa atmosfera” (Matos, p. 58).

Emoção subliminar: Por fim, mas não menos importante, a última função que nos serve para construir um storytelling na música eletrônica, é a chamada emoção subliminar. Como falei acima, a música é, na dramaturgia, um personagem oculto que tem função de criar os ambientes, tensionar e distensionar as cenas quando preciso. É ela que trabalha de forma subliminar nas emoções da audiência, por isso, esta função não poderia ser mais explicativa pelo seu nome. É exatamente, realçar as emoções presentes na história. 

Através do poder dramático que a música possui, ela auxilia na compreensão, por parte do público, do enredo e suas sutilezas realçando tanto os sentimentos mais facilmente detectáveis quanto outros mais obscuros. Assim, a estória pode ser contada sem necessidade de muitas palavras ou de outros recursos narrativos mais explícitos” (Matos, p. 58)

Além disso,

“De forma semelhante, a música pode introduzir alguma mudança que não se faz aparente na tela como uma alteração emocional de um personagem. Mesmo uma pequena variação no sentido musical, como uma ferramenta num acorde suspenso ou o uso de outro modo ou escala, pode levar a sequência a um desfecho mais dramático” (Matos, p. 59)

Aplicando de forma mais prática em nosso gênero, poderíamos observar esta função no arranjo a partir da construção de uma estrutura, ou mesmo em uma progressão de acordes. Em uma construção de um break longo, que tenha uma harmonia e melodia que apele para emoção dos ouvintes. O que é a famosa expectativa para o drop se não uma criação de uma emoção subliminar dos ouvintes? Toda a audiência sabe que nesse momento da música está próximo de algo acontecer, atuando diretamente nas expectativas subjetivas de cada ouvinte. Pois cada pessoa imagina algo diferente que possa vir a acontecer após um drop. Isto é uma atuação da função da emoção subliminar em sua forma mais simples e didáticos. Todos esses exemplos são processos práticos que nos levam a criar um ambiente e, sobretudo, emoções – não necessariamente boas – que somente a música, por atuar no campo subjetivo, pode tocar subliminarmente em quem escuta. 

Por isso, utilizando somente estas três funções da música – no qual são exemplificadas na dramaturgia, mas aqui utilizamos de uma outra forma – podemos começar a ter agora os primeiros elementos narrativos para a criação de um storytelling na música. Primeiro, nos referenciamos espacialmente onde e quando queremos que a história da nossa música se passe. Depois, achamos o clima da música, a atmosfera que irá ambientar este espaço referenciado. E por fim, contaremos a história diretamente a quem escuta, a partir da interação com as emoções subliminares do público. 

2.1 Melodia, Harmonia, Ritmo...ação!

Como sabemos, na dramaturgia temos elementos que são centrais para que haja uma boa narrativa. Entre eles a interação dos personagens que contam a história a partir de suas perspectivas, estou falando do diálogo. Segundo o “Dicionário de Teatro” de Patrice Pavis, “o diálogo é geralmente uma troca verbal entre personagens. [...] O critério essencial do diálogo é o da troca e da reversibilidade da comunicação” (Pavis, p. 92). Além disso, temos um segundo elemento que é o cenário que, ainda segundo o dicionário de Pavis é: “Na consciência ingênua, o cenário é um telão de fundo, em geral em perspectiva e ilusionista, que insere o espaço cênico num determinado meio” (Pavis, p. 42). E por fim, um outro elemento interessante é o corte de cenas e a velocidade dos fatos com que a história se desenvolve durante a trama. 

Ainda pesquisando e lendo sobre o livro do maestro Eugenio Matos, me deparei com o cerne da questão deste texto que foi muito explicativo sobre a forma com que poderíamos construir um verdadeiro storytelling musical. Trazendo estes elementos que descrevi acima: diálogo, cenário e velocidade dos fatos no qual estruturam a trama visualmente, para pensá-las somente em termos musicais. Desta forma, chegamos ao núcleo do texto para responder a nossa pergunta inicial: qual a relação entre a arte dramática e o storytelling na música eletrônica? Além disso, vou trazer alguns exemplos audíveis para demonstrar uma forma mais objetiva ao que irei me ater. 

O próprio maestro Eugenio Matos avisa que “Desta forma, podemos estabelecer uma conexão entre os aspectos fundamentais da música – melodia, harmonia e ritmo – e os elementos observados durante a peça” (Matos, p. 52). Até aqui mostramos como a música sustentou os elementos objetivos (cenas, cenário, diálogos entre outros). Depois retiramos estes elementos e começamos a trabalhar as questões subjetivas da música; suas funções espaciais e psicológicas e como utilizá-las para dar início a construção de um storytelling musical. Ou seja, mostramos como mesmo retirado dos elementos visuais da música, ela ainda atua no subjetivo do ouvinte. Agora, iremos mostrar como, ainda dentro do arranjo musical existem elementos narrativos objetivos que equivalem a imagens, no qual são, exatamente, os que estou buscando mostrar neste texto. Comecemos.

O primeiro elemento narrativo objetivo que encontramos, segundo o maestro, é a melodia. Em seu livro, este elemento é análogo com o diálogo dos personagens. A “sequência de notas tocadas uma a uma, criando o que se conhece por motivos, frases e períodos – semelhantes às construções com palavras” (Matos, p. 52). Ou seja, se formos colocar a melodia como condutora da história a partir dos diálogos teremos que nos debruçar em dois aspectos. Primeiramente de uma progressão melódica. Onde esta começa de uma forma mais minimalista, dando os primeiros traços da história, com poucas notas, para assim chegar a seu refrão com toda sua composição sendo tocada. Equivaleria então a contar uma história de seu início mostrando as primeiras características narrativas, para assim chegar ao seu ápice e terminar resolvendo sua tensão narrativa. O que temos aqui, é o que Richard Wagner chamava de Leitmov ou motivo condutor, a assinatura sonora de um personagem durante todo enredo quando este aparece. A melodia se torna, desta maneira, a parte que vai narrar a história a partir de sua progressão melódica tendo início, meio e fim. O segundo aspecto para que chamo atenção é a clássica técnica de ‘call and response’, que quando um determinado instrumento toca alguma nota outro responde (dentro do mesmo campo harmônico) e assim durante toda a música. Esta técnica, caracteriza essencialmente um diálogo musical entre os instrumentos do arranjo.

O segundo elemento é a harmonia. Este fundamento essencial da composição musical se expressa equivalente ao cenário de uma determinada história. Ou seja, “a harmonia ajuda, assim, a estabelecer um ambiente geral visível, uma atmosfera particular dando suporte a melodia, ou seja, a tudo que o ator comunica em palavras e gestos.” Assim, muito atrelado à função psicológica da música a harmonia nos dá a base onde a história será contada. Musicalmente falando, a harmonia é a base harmônica que sustentará os diálogos da melodia durante todo o arranjo. Além disso, é a partir da variação harmônica – ou o cenário –, que os diálogos e o clima geral da música irão se modificar. “Sua força se manifesta no sentido de causar impressões instantâneas, muitas vezes difíceis de descrever, especialmente nos domínios impalpáveis das emoções e dos sentimentos.” (Matos, p. 52)

E por fim, o terceiro elemento é o ritmo. Este fundamento musical é equivalente então, a relação da velocidade, a cadência, o corte de cenas e a intensidade da história. Ritmo, musicalmente, é a “estrutura de tempos ordenados em esquemas pré-definidos e seguido de certa pulsão.” (Matos, p. 52). Desta maneira uma intensidade no ritmo, na progressão e no preenchimento das camadas que compõem o arranjo pode nos levar a um tensionamento maior do arranjo e da música. Quem não se lembra da técnica de progressão da bateria na música eletrônica? Close hat em 1/8, close hat em 1/16 e por fim um open hat em 1/8? Por isso, o ritmo “representa a sucessão e a velocidade dos fatos, ou seja, das falas, dos gestos, movimentos, jogo de luzes, deslocamento de cenários e etc.” (Matos, p. 52). Desta forma o ritmo da música conduz a uma maior intensidade do storytelling, preenchendo suas camadas e progredindo as mesmas e vice-versa. A harmonia nos mostra onde que está se dando esta intensidade, e qual o clima que está sendo transmitido. E por fim, a melodia dialoga diretamente com o ouvinte através do motivo condutor e da técnica de call and response.  

Relação entre elementos musicais e visuais

Relação entre elementos musicais e visuais

Elencando os elementos narrativos dentro da música, vamos passar agora ao último tópico, um exemplo prático de como exercer todos esses conceitos dentro da música. Vou me arriscar a mostrar um exemplo pessoal e também mostrar todo meu processo criativo antes da construção de uma música.

3. O método

Sempre quando vou ao estúdio para criar uma música, tenho somente uma coisa em mente. Uma pergunta que preciso resolver e por isso preciso encontrar elementos suficientemente bons para que eu encontre a resposta. Esta pergunta é: qual a mensagem que quero passar através desta música? Para isso, inicio sempre uma preparação de pré-produção, uma busca de conceitos, um estudo mais aprofundado sobre o tema que quero transformar em música. 

Por isso, o primeiro passo no meu processo criativo começa por uma escolha do tema. Mas como início esta busca, por onde devo começar? Bem, honestamente, isto é uma questão estritamente pessoal. Mas a pergunta que o artista deve se fazer é: de onde vem minha inspiração? Quais são minhas referências? Que tipo de estética quero mostrar? Quais são meus valores que acho que devem ser passados pela música? Acreditar que minhas ideias são exclusivamente minhas, de que eu sou a minha maior inspiração é um completo engano, na minha visão. Como disse o poeta e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura Pablo Neruda: “Eu não acredito na originalidade. É mais um fetiche criado na nossa época de vertiginoso colapso. Acredito na personalidade através de qualquer linguagem, de qualquer forma, de qualquer sentido da criação artística” (Neruda, p. 317, tradução livre). Então, este primeiro passo é algo muito individualizado, porém muito coletivo, pois a inspiração vem do nosso meio social e precisamos apenas encontrá-la, ver com o que nos identificamos e encontrar nossa temática.

Escolhido o tema, abre-se espaço para três novos trabalhos. O primeiro é um estudo sobre este tema, começar a ler sobre todos os assuntos relacionados. Observar que estética realmente este tema pode trazer e quais os ambientes que desejo criar na música. Simultaneamente, procuro todos os tipos de vocais que falem sobre este tema e encontro o refrão específico, que sintetize a temática em poucas frases. O vocal possui um papel importante aqui, pois de tudo que falamos, de todos os elementos na música ele se torna o mais objetivo, que fala diretamente sobre o que se trata a história. E por fim, posso agora começar a estudar a relação do tema com o tom. Aqui, me refiro ao tom (de tonalidade), mas também ao tom estético no qual a minha música irá se transformar. Como explica o maestro Eugênio, com relação a escolha deste duplo sentido do tom para a trilha sonora de um filme:

“Já o tom, aqui considerado, diz respeito a um caráter geral que afeta diretamente a música. Tem relação, por exemplo, com a coloração da imagem, o ritmo da montagem, os enquadramentos, a luz, além do próprio conceito da estória. O conjunto desses aspectos fornece ao compositor a chave para estabelecer o tom do filme. Portanto, enquanto o conceito do filme guarda relação com os valores contidos e transmitidos pela estória, o tom do filme condiciona (e é condicionado por) todos seus aspectos plásticos, bem como pelo próprio conceito, ou seja, o conceito influi no tom do filme e está nele contido.” (Matos, p. 50)

É somente a partir desta escolha do tom, que posso finalmente abrir o DAW e fazer os primeiros experimentos. Tocando a primeira vez alguns acordes junto ao vocal, e possuindo já um estudo prévio do assunto, tenho os elementos necessários para conseguir encontrar as funções psicológicas e espaciais da minha música. Bem como, iniciar um cenário a partir da criação de um campo harmônico no qual minha história vai ser contada. Assim, posso passar para dentro do DAW e começar a montar a versão daquela história. Criar os diálogos melódicos, o arranjo irá conduzir, as cenas a partir de uma estruturação estética prévia que cria uma base consistente para escrever o roteiro da música. É certo que há aqui a construção de kick and bass, percussão, bateria e todos os elementos fundamentais da música eletrônica e do psytrance. No entanto, estou falando com relação a storytelling musical/conceitual e não sobre esses fundamentos específicos.

A parte mais fascinante neste processo é que mesmo todo este estudo prévio que será lançado sob o subjetivo de cada ouvinte, será preenchido com cada individualidade. Em outras palavras, a interpretação que tenho inicialmente da minha música, mesmo com todo o estudo e etc. não será a mesma de quem irá ouvi-la. No entanto, são os elementos estéticos que proporcionam esta (re)interpretação da minha música para outras pessoas, que criam a partir de suas subjetividades as compreensões pessoais destes elementos que são impalpáveis. Creio que é neste momento, quando a música vai ao público e existem uma gama enorme de reinterpretações desta por parte dos ouvintes, que o ciclo artístico de uma obra se completa. Estou aqui falando da tríade arte, artista e público. É, pois, somente na transformação a partir do contato da obra com o público que minha música deixa de se tornar uma música, e se torna uma obra artística.

Relação da obra, artista e público
Relação da obra, artista e público

3.1 Um exemplo prático do storytelling musical

Esta música minha que vou analisar neste último subtópico do texto, foi criada por mim em 2015. Não cabe aqui, entrar nos pormenores de um contexto que estava quando criei ela, no entanto, ela possui um valor simbólico pessoal que é expresso na música. Mas vamos fazer uma análise mais objetiva dela, não dos treze minutos, mas de alguns elementos centrais e tentar buscar os elementos narrativos de um storytelling musical que trouxe durante todo o texto. Me acompanhe na história. 

Primeiramente, a música se inicia com alguém fazendo uma pergunta, descrevendo um cenário distópico onde tudo está em completa destruição. E então, a partir de um “wake up”, entramos no cenário da música. 

Se bem analisarmos, nos primeiros minutos a harmonia e ambiente psicológico mostra algo ambivalente, ambiências um pouco mais alegres, no entanto, ainda de suspense no fundo. Além disso, podemos perceber dois personagens por meio dos vocais que se apresentam em 0:59 de música e o outro em 1:25. Aqui, então, temos um ambiente incerto decorrente do ambiente psicológico criado pela harmonia em um tom menor da música e a guitarra que aparece em 1:22 de música anuncia algo a partir de suas notas. 

Em 1:45 acontece algo central para o storytelling da música. A ambiência muda, e entram agora vozes humanas (choirs) que representam algo redentor para a música., como se anunciasse a chegada de alguém. E então o vocal anuncia que alguém está vivo, com a resposta da guitarra tocando uma melodia ainda de suspense. 

Na volta do break seguinte o primeiro personagem responde com um tom de ameaça. Descrevo literalmente o que se passa aqui nesses primeiros momentos iniciais porque estes são os elementos centrais para a narrativa da música. Aparentemente, são dois personagens dialogando sobre um terceiro, mas quem seria exatamente o terceiro personagem? Especificamente quem está ouvindo a música. Eles dialogam diretamente sobre quem está ouvindo e conduzem o ouvinte no storytelling até o fim. 

Repare que a estética da música é a todo momento de suspense, de tensão, como algo ainda não resolvido. A partir dos 4:38 de música a sequência melódica que aparece nos diz que estamos em plena fuga, contra um dos personagens que tenta a todo momento nos bloquear de uma saída, que encontramos nos últimos segundos de música. A todo momento, a música é contradição e tensão entre dois personagens dialogando diretamente, um tentando levar o ouvinte para fora deste cenário, o outro tentando mantê-lo neste ambiente psicológico.  

Sobre o ritmo, temos dois momentos de extrema tensão e velocidade na música. Aos 7:40 onde a música encontra seu auge, e poderíamos dizer um auge da corrida que ela se encontra para fora do cenário. E outro, aos 11:30, após o break existe um momento de redenção completa, no qual um dos personagens consegue finalmente escapar do outro e que nos conduz até a abertura do portão aos 13:36 de música. 

Observe que no break há o grande “enfrentamento”, a harmonia e o ambiente psicológico e espacial a todo momento aparecem, por meio de explosões, sirenes, pássaros e atmosferas tensas. O vocal se desenrola plenamente e há várias tentativas de drop sem sucesso. Por que destas? Algumas pessoas me falam que era puramente para “amagar” ou enganar o público. No entanto, entendendo dentro do storytelling da música, está relacionada diretamente às ameaças que um dos personagens nos faz ao tentarmos sair do cenário. Porém o drop acontece e, logo aos 10:54, temos um vocal objetivamente nos anunciando: freedom! Yes! Yes! A estética, após o break, cria um ambiente de menor tensão, de transição para algo que está mais resolvido. 

Ao final, a mesma guitarra que aparece no início e no meio da música sob um aspecto de ‘fuga’, com uma tensão maior, ela se apresenta de outra forma, mais leve e anunciando o fim, sob o vocal, agora mostrando quem o ouvinte é: this is the freeman! Este é, pois, o motivo condutor da música, a busca da liberdade.  

Elenquei alguns pontos mais precisos de como a narrativa foi contada nesta música. Ela possui, antes de tudo, uma temática de contradição e de fuga sob o lugar em que se está, e as duas vozes conversam com o ouvinte de uma forma subliminar uma convencendo a ficar e a outra a ir embora. A jornada então é esta, a história que conta na música é a do próprio ouvinte saindo de algum cenário, abrindo margem para o público preencher com sua subjetividade os elementos narrativos inacabados da música. Em outras palavras, os elementos visuais que discutimos no início são criados por quem escuta e conduzidos pela história e seus elementos musicais durante os treze minutos. Quem se torna o personagem oculto agora não é mais a música, mas o ouvinte que é a última peça da obra artística. Trouxe esse tema, que gosto muito, para tentar instigar novos produtores que estão iniciando a ter um pequeno guia para tentarem encontrar um caminho para poderem comunicar o que desejam a partir de suas criações. O conceito por trás da música é fundamental, é ele que diferencia não a originalidade, mas como Neruda diz, a sua própria personalidade. Por isso, encerro este texto com uma citação de um dos meus escritores favoritos, China Mieville, falando sobre as ideias e os conceitos:


“Lutar por “novidade” e “singularidade” pode entristecê-lo. E não existe “sem novas ideias”. Talvez a melhor coisa seja refazer, recombinar e misturar as ideias em novas combinações.  Para ser honesto, creio que muitos de nós têm ideias melhores do que realmente achamos ter. Acho que um dos grandes problemas que encaramos é que as pessoas são treinadas a escutar que suas ideias são ridículas, desanimando rapidamente. Acho que o maior problema que as pessoas enfrentam não é a falta de ideia, mas sim o desencorajamento em seguir firme com elas” (Mieville, 2016).

Até a próxima!

Fontes consultadas:

Adilson Xavier, Storytelling: Histórias que deixam marcas (Best Bussines, 2015)
China Mieville Entrevista (Revista Gallileu 2016)
Eugenio Matos, A Arte de Compor Música para o Cinema (Editora Senac, 2014)
Pablo Neruda, Confieso que he vivido (Debolsillo, 2014)
Patrice Pavis, Dicionário de Teatro (Perspectiva, 2008) 



1 comentário

  • Caramba, que texto denso, rico… E principalmente agregador, a mto tempo tenho venho refletindo em circulos sobre isso, e sua clareza de pensamento junto com todo o trabalho envolvido para expor o tema e jogar as cartas na mesa alegraram minha noite… Podemos dizer que você deu vida a algo como uma Semiótica da musica voltada as pistas de dança!!! Acredito que isso seja inédito na língua portuguesa, quiçá no mundo.
    Obrigado pela imensa contribuição… SZ

    Gabriel Maia


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